APONTAMENTOS
03/03/2012
23/11/2007
Arroz do Céu
O conto escolhido «Arroz do Céu» de José Rodrigues Miguéis integrado na obra Gente da Terceira Classe, retrata a vida de um imigrante de leste, dos países Bálticos, muito pobre, com sete filhos, a viver nos E.U.A. e a trabalhar no subway (Metropolitano). Ele considera este emprego muito melhor que os anteriores porque não tem que falar inglês, que mal entende, e, como veremos no final, lhe permite sustentar a família com o arroz desperdiçado no Uptown (a parte rica da cidade de Nova Iorque, na ilha de Manhatan) e que ele apanha do chão «…imundo e viscoso…». Este conto, escrito em 1962 por alguém que viveu nos E.U.A., versa o problema das minorias étnicas (os imigrantes). A personagem não é apresentada por um nome próprio que o individualize como ser humano e cidadão integrado, mas pela sua profissão «o Limpa-vias trabalhava há muitos anos no subway». O mundo do protagonista é um mundo à parte do Uptown. Este é caracterizado como sendo «chique a paróquia e imponente a igreja (…) onde o arroz chove às cabazadas em cima dos noivos; (…) arroz alvo, carolino de primeira».«O Limpa-vias desconhecia os ritos e as elegâncias, no casamento dele não tinha havido arroz de espécie alguma: nem de galinha nem cru». As relações unidireccionais são evidentes, a personagem desconhece por completo o mundo tão oposto ao seu. A grande diferença entre estes dois mundos reside na «…claridade (…) voragem empolgante das ruas» e a obscuridade «parede negra (…) floresta subterrânea» ou seja, o Sobre e o Sob. Os estilos de vida são completamente diferentes. Um é símbolo de alegria e de divertimento... Aqui o arroz é visto como «…grande estrago de alegria como desperdício». Um desperdício aproveitado pelo Limpa-vias que, com ele, sustenta a família. Em suma, as relações de dominação, de isolamento de ausência de partilha, de solidariedade e de conhecimento são enfatizadas na frase final do conto: «O céu do Limpa-vias é a rua que os outros pisam».É de realçar que o texto linguístico está perfeitamente interligado com o texto icónico reforçando os sujeitos e as situações diversas dos «mundos». Ao escolhermos este conto tivemos em atenção a actualidade da problemática das minorias étnicas, os problemas que têm surgido em Portugal pois o nosso País é hoje não só uma terra de emigrantes mas também de imigrantes. Depois de uma leitura crítica do conto e de uma leitura paralela do excerto O Tony Transmontano o cidadão é, com certeza, levado a aceitar a diversidade numa perspectiva activa ou, pelo menos, assim esperamos.
26/10/2007
Freixo de espada a cinta

PONTOS DE INTERESSE
http://www.cm-freixoespadacinta.pt/
http://www.glosk.com/PO/Freixo%20de%20Espada%20Cinta/-2999991/photos/Barragem_de_Saucelle_vista_do_Penedo_Dur%C3%A3o_-_Freixo_de_Espada_Cinta_(Portugal)/181864_pt.htm
http://www.portugal.montranet.com/portugal/freixo/index.htm
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A história interminável, Michael Ende
Características do Texto Dramático
As primeiras manifestações dramáticas terão nascido das necessidades religiosas dos povos:
· as danças tribais;
· as danças rituais;
· as manifestações de súplica ou agradecimento a um deus, etc.
Na Grécia, o teatro surge em torno das celebrações do deus Dionísio, filho de Zeus. Tratava-se de tragédias e comédias onde havia uma função didáctica e moral. Através delas, os
governantes pretendiam “ ensinar” o povo a respeitar o deus e o governante.
Na Idade Média, o teatro surge novamente ligado a questões religiosas (à Igreja Católica):
· pequenas representações de textos bíblicos do Antigo e do Novo Testamento;
· posteriormente, pequenas alegorias sobre os vícios e as virtudes.
O teatro torna-se aos poucos independente dos poderes religioso e político, surgindo, então, a época vicentina,
definido pelas seguintes características:
· acontecimentos inventados com alguma comicidade;
· farsas e comédias sobre aspectos da vida quotidiana da sociedade da época;
· caricaturas de sermões;
· a figura do Parvo que servia para criticar e denunciar o que estava mal na sociedade.
Estamos perante um teatro com uma função crítica e moral ao mesmo tempo.
No século XVI (Renascimento) assumem lugar a tragédia e a comédia clássicas:
· Sá de Miranda é o autor da primeira comédia portuguesa, Estrangeiros;
· António Ferreira marca em Portugal a tragédia clássica com A Castro.
No século XIX, com o Romantismo,
desenvolveu-se, entre outros, o “drama romântico”, de que é exemplo Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett.
No século XX, o teatro moderno surge com alguns nomes de destaque:
· na primeira metade do século, o grupo do Orpheu e da Presença merecem uma
referência pelas suas intuições dramáticas na linha do teatro poético;
· da geração de autores contemporâneos distinguem-se Luís Francisco Rebello, Bernardo Santareno, Luís de Sttau Monteiro e José Cardoso Pires.
Trata-se de autores em cujas obras existe uma funçãoideológica e social pela natureza dos seus textos, principalmente Bernardo Santareno e Luís de Sttau Monteiro, o chamado teatro épico que pretende levar o espectador a tomar posição em relação
àquilo que vê, fazendo dele uma testemunha.
O TEXTO DRAMÁTICO É CONSTITUÍDO POR:
- Texto principal composto pelas falas dos actores que é ouvido pelos espectadores;
- Texto secundário (ou didascálias) que se destina ao leitor, ao encenador da peça ou aos actores.
É composto:
- pela listagem inicial das personagens;
- pela indicação do nome das personagens no início de cada fala;
- pelas informações sobre a estrutura externa da peça (divisão em actos, cenas ou quadros);
- pelas indicações sobre o cenário e guarda roupa das personagens;
- pelas indicações sobre a movimentação das personagens em palco, as atitudes que devem tomar, os gestos que devem fazer ou a entoação de voz com que devem proferir as palavras;
Acção – é marcada pela actuação das personagens que nos dão conta de acontecimentos vividos.
Estrutura externa – o teatro tradicional e clássico pressupunha divisões em actos, correspondentes à mutação de cenários, e em cenas e quadros, equivalentes à mudança de personagens em cena.
O teatro moderno, narrativo ou épico, põe completamente de parte as normas tradicionais da estrutura externa.
Estrutura interna:
Exposição – apresentação das personagens e dos antecedentes da acção.
Conflito – conjunto de peripécias que fazem a acção progredir.
Desenlace – desfecho da acção dramática.
Classificação das Personagens:
* Quanto à sua concepção:
Planas ou personagens-tipo – sem densidade psicológica uma vez que não alteram o seu comportamento ao longo da acção. Representam um grupo social, profissional ou psicológico);
Modeladas ou Redondas – com densidade psicológica, que evoluem ao longo da acção e, por isso mesmo, podem surpreender o espectador pelas suas atitudes.
* Quanto ao relevo ou papel na obra:
+ protagonista ou personagem principal Individuais
+ personagens secundárias
+ figurantes Colectivas
Tipos de caracterização:
Directa – a partir dos elementos presentes nas didascálias, da descrição de aspectos físicos e psicológicos, das palavras de outras personagens, das palavras da personagem a propósito de si própria.
Indirecta – a partir dos comportamentos, atitudes e gestos que levam o espectador a tirar as suas próprias conclusões sobre as características das personagens.
Espaço – o espaço cénico é caracterizado nas didascálias onde surgem indicações sobre pormenores do cenário, efeitos de luz e som. Coexistem normalmente dois tipos de espaço:
Espaço representado – constituído pelos cenários onde se desenrola a acção e que equivalem ao espaço físico que se pretende recriar em palco.
Espaço aludido – corresponde às referências a outros espaços que não o representado.
Tempo:
Tempo da representação – duração do conflito em palco;
Tempo da acção ou da história – o(s) ano(s) ou a época em que se desenrola o conflito dramático;
Tempo da escrita ou da produção da obra – altura em que o autor concebeu a peça.
Discurso dramático ou teatral:
Monólogo – uma personagem, falando consigo mesma, expõe perante o público os seus pensamentos e/ou sentimentos;
Diálogo – falas entre duas ou mais personagens;
Apartes – comentários de uma personagem que não são ouvidos pelo seu interlocutor.
Além deste tipo de discurso, o texto dramático pressupõe o recurso à linguagem gestual, à sonoplastia e à luminotécnica.
Intenção do autor - pode ser:
Moralizadora;
Lúdica ou de evasão;
Crítica em relação à sociedade do seu tempo;
Didáctica.
Formas do género dramático:
Tragédia
Comédia
Drama
Teatro Épico.
Outras características:
Ausência de narrador.
Predomínio do discurso na segunda pessoa (tu/vós)
Numa tarde Robinson estava na sua bela ilha Speranza a pescar um peixinho para o jantar, enquanto Sexta-feira empoleirado na árvore apanhava côcos.Depois de apanhar o seu peixinho, Robinson foi ver o que Sexta-feira andava a fazer.Diz Robinson:
-Então Sexta-feira o que estás a fazer aí em cima?Responde Sexta-feira:
-Estou a apanhar alguns côcos.Robinson diz:
-Não me digas que estás a pensar em fazer mais uma daquelas receitas enjoativas. Não quero apanhar outra indigestão!Responde-lhe Sexta-feira rindo:
-Esteja descansado amo, agora não terá uma mas sim duas indigestões.E Robinson gritando:
-Sexta-feira…Sexta-feira assustado com o grito de Robinson cai do coqueiro mesmo em cima dele.Sexta-feira muito atrapalhado diz:
-Desculpe amo estava a brincar e não tinha intenção de cair em cima de si.Diz Robinson chatiado:
-De castigo vais lavar as minhas ceroulas!Passado uns minutos.Robinson:
-Vê lá se isso fica bem lavado, senão voltas a lavar isso de novo.Responde Sexta-feira:
-Isto vai ficar um brinquinho.Entre os pensamentos de Sexta-feira:
- Pois sobra sempre para mim.
(Fábio CNOL)
-Então Sexta-feira o que estás a fazer aí em cima?Responde Sexta-feira:
-Estou a apanhar alguns côcos.Robinson diz:
-Não me digas que estás a pensar em fazer mais uma daquelas receitas enjoativas. Não quero apanhar outra indigestão!Responde-lhe Sexta-feira rindo:
-Esteja descansado amo, agora não terá uma mas sim duas indigestões.E Robinson gritando:
-Sexta-feira…Sexta-feira assustado com o grito de Robinson cai do coqueiro mesmo em cima dele.Sexta-feira muito atrapalhado diz:
-Desculpe amo estava a brincar e não tinha intenção de cair em cima de si.Diz Robinson chatiado:
-De castigo vais lavar as minhas ceroulas!Passado uns minutos.Robinson:
-Vê lá se isso fica bem lavado, senão voltas a lavar isso de novo.Responde Sexta-feira:
-Isto vai ficar um brinquinho.Entre os pensamentos de Sexta-feira:
- Pois sobra sempre para mim.
(Fábio CNOL)
Exercício de Escrita Criativa
Vê com atenção o pequeno filme que se segue e a partir das imagens e dos seus pormenores, imagina a história e o diálogo entre as duas personagens.
Vê com atenção o pequeno filme que se segue e a partir das imagens e dos seus pormenores, imagina a história e o diálogo entre as duas personagens.
SEXTA-FEIRA OU A VIDA SELVAGEM
Análise do Auto da Barca do Inferno
Introdução
Este trabalho fala sobre uma das obras de Gil Vicente – “O Auto da Barca do Inferno”.
Neste trabalho faz-se um resumo e uma análise de algumas cenas: o onzeneiro, o sapateiro, o enforcado e o frade.
Cada cena é analisada nos seguintes pontos: os símbolos das personagens que entram em cena, os argumentos de acusação, os argumentos de defesa e os recursos estilísticos presentes.
Características do Auto da Barca do Inferno
Peça teatral, escrita por Gil Vicente, num único acto, subdividido em cenas marcadas pelos diálogos que o Anjo ou o Diabo travam com as várias personagens.
O cenário desta peça teatral consiste num ancoradouro, no qual estão atracadas duas barcas. Todos os mortos, necessariamente, têm a passar por este paragem, sendo julgados e condenados ou à barca da Glória ou à barca do Inferno.
Cada personagem apresenta, através da fala, traços que denunciam a sua condição social. As personagens focalizadas entram na morte com os seus instrumentos terrenos, são venais, inconscientes e por causa dos seus pecados não atingem a Glória, a salvação eterna. Destaque deve ser feito à figura do Diabo, personagem vigorosa que conhece a arte de persuadir, é ágil no ataque, cabe a este denunciar os vícios e as fraquezas, sendo a personagem mais importante na crítica que Gil Vicente tece da sua época.
Análise de algumas cenas
Cena III
Onzeneiro: O segundo personagem a ser inquirido que ao chegar à barca do Diabo descobre que o seu rico dinheiro ficara em terra. Utilizando o pretexto de ir buscar o dinheiro, tenta convencer o Diabo a deixa-lo retornar, mas acaba cedendo às exigências do julgamento.
Símbolo que o caracteriza: Saco do dinheiro.
Argumentos de acusação: O onzeneiro é acusado de ser parente do Diabo; usar de maldade para explorar os mais pobres; de ser ganancioso e materialista.
Argumentos de defesa: O onzeneiro usa como argumentos de defesa o facto de ter tido uma morte súbita; ter o bolsão/saco vazio e de Satanás o ter cegado.
Recursos estilísticos:
- Pleonasmo:
“Ora mui muito m´ espanto…”
- Aliteração:
“Hou da baça! Houlá! Hou! Haveis logo de partir?”
Percurso cénico do Onzeneiro:
Cais ® Barca do Inferno ® Barca da Glória ® Barca do Inferno ® Embarca
Cena V
Sapateiro: representante dos mestres de ofício, que chega à embarcação do Diabo carregando os seus instrumentos de trabalho: as formas e o avental. Engana na vida e procura enganar o Diabo, que espertamente não se deixa levar pelos seus artifícios.
Símbolos que o caracterizam: Formas de sapatos e o avental.
Argumentos de acusação: O sapateiro é acusado de ter morrido excomungado; de ter calado dois mil enganos; de ter roubado o povo com a sua profissão; enfim, não vivia honestamente.
Argumentos de defesa: O sapateiro usa como defesa, para não embarcar na barca do Inferno, o facto de ter dado dinheiro à igreja e de ter mandado rezar orações pelos defuntos, enquanto era vivo.
Recursos estilísticos:
- Anáfora:
“E as ofertas, que darão? E as horas dos finados?E os dinehrios mal levados…”
- Ironia:
“Santo sapateiro honrado!Como vens tão carregado?”
Percurso cénico do Sapateiro:
Cais ® Barca do Inferno ® Barca da Glória ® Barca do Inferno ® Embarca
Cena VI
· Frade: Como todos os representantes do clero, focalizados por Gil Vicente, o Frade é alegre, cantante, bom dançarino e mau carácter. Acompanhado da sua amante, o Frade acredita que por ter rezado e estar ao serviço da fé, deveria ser perdoado ao fogo do Inferno. Gil Vicente crítica fortemente o clero, acreditando este ser incapaz de pregar as três coisas mais simples: a paz, a verdade e a fé.
· Símbolos que o caracterizam: Uma moça, um broquel, uma espada e um casco debaixo do capelo.
· Argumentos de acusação: O Frade é acusado de ter folgado com uma mulher; ser infiel perante a igreja pois era dado aos prazeres do mundo e também é acusado de roubo.
· Argumentos de defesa: O Frade usa como defesa o facto de ser da corte; de usar o hábito e de ter rezado os salmos.
· Recursos estilísticos:
- Perífrase:
“Pêra aquele fogo ardenteque nom temestes vivendo.”
- Ironia:
“Devoto padre marido,haveis de ser cá pingado…”
· Percurso cénico do Frade:
Cais ® Barca do Inferno ® Barca da Glória ® Barca do Inferno ® Embarca
Cena X
· Enforcado: Chega ao batel acreditando ter o perdão garantido pois o seu julgamento terreno e posterior condenação à morte o teriam redimido dos seus pecados, mas é condenado também a ir para o Inferno.
· Símbolo que o caracteriza: Corda ao pescoço.
· Argumentos de acusação: O enforcado é acusado de ter sido ladrão e de ter sido condenado à morte.
· Argumentos de defesa: O enforcado usa como defesa o facto de ter sido condenado à morte e enforcado, segundo ele os que morrem assim são livres de Satanás.
· Recursos estilísticos:
- Anáfora:
“Disse que era o Limoeiro,e ora por ele o salteiroe o pregão vitatório;e que era mui notório…”
- Ironia:
“Entra cá, governarás atá as portas do inferno.”
· Percurso cénico do Enforcado:
Cais ® Barca Do Inferno ® Embarca
Conclusão
Com este trabalho ficamos a conhecer um pouco melhor uma das muitas obras escritas por Gil Vicente – “O Auto da Barca do Inferno”.
Neste trabalho foram analisadas quatro das cenas que constituem esta peça teatral: cena III: o onzeneiro; cena V: o sapateiro; cena VI: o frade e a cena X: o enforcado. Esta cenas foram analisadas nos seguintes aspectos: os símbolos das personagens que entram em cena, os argumentos de acusação, os argumentos de defesa e os recursos estilísticos presentes.
Através desta peça Gil Vicente critica a sociedade portuguesa da sua época, como foi possível observar na análise destas quatro cenas.
Este trabalho fala sobre uma das obras de Gil Vicente – “O Auto da Barca do Inferno”.
Neste trabalho faz-se um resumo e uma análise de algumas cenas: o onzeneiro, o sapateiro, o enforcado e o frade.
Cada cena é analisada nos seguintes pontos: os símbolos das personagens que entram em cena, os argumentos de acusação, os argumentos de defesa e os recursos estilísticos presentes.
Características do Auto da Barca do Inferno
Peça teatral, escrita por Gil Vicente, num único acto, subdividido em cenas marcadas pelos diálogos que o Anjo ou o Diabo travam com as várias personagens.
O cenário desta peça teatral consiste num ancoradouro, no qual estão atracadas duas barcas. Todos os mortos, necessariamente, têm a passar por este paragem, sendo julgados e condenados ou à barca da Glória ou à barca do Inferno.
Cada personagem apresenta, através da fala, traços que denunciam a sua condição social. As personagens focalizadas entram na morte com os seus instrumentos terrenos, são venais, inconscientes e por causa dos seus pecados não atingem a Glória, a salvação eterna. Destaque deve ser feito à figura do Diabo, personagem vigorosa que conhece a arte de persuadir, é ágil no ataque, cabe a este denunciar os vícios e as fraquezas, sendo a personagem mais importante na crítica que Gil Vicente tece da sua época.
Análise de algumas cenas
Cena III
Onzeneiro: O segundo personagem a ser inquirido que ao chegar à barca do Diabo descobre que o seu rico dinheiro ficara em terra. Utilizando o pretexto de ir buscar o dinheiro, tenta convencer o Diabo a deixa-lo retornar, mas acaba cedendo às exigências do julgamento.
Símbolo que o caracteriza: Saco do dinheiro.
Argumentos de acusação: O onzeneiro é acusado de ser parente do Diabo; usar de maldade para explorar os mais pobres; de ser ganancioso e materialista.
Argumentos de defesa: O onzeneiro usa como argumentos de defesa o facto de ter tido uma morte súbita; ter o bolsão/saco vazio e de Satanás o ter cegado.
Recursos estilísticos:
- Pleonasmo:
“Ora mui muito m´ espanto…”
- Aliteração:
“Hou da baça! Houlá! Hou! Haveis logo de partir?”
Percurso cénico do Onzeneiro:
Cais ® Barca do Inferno ® Barca da Glória ® Barca do Inferno ® Embarca
Cena V
Sapateiro: representante dos mestres de ofício, que chega à embarcação do Diabo carregando os seus instrumentos de trabalho: as formas e o avental. Engana na vida e procura enganar o Diabo, que espertamente não se deixa levar pelos seus artifícios.
Símbolos que o caracterizam: Formas de sapatos e o avental.
Argumentos de acusação: O sapateiro é acusado de ter morrido excomungado; de ter calado dois mil enganos; de ter roubado o povo com a sua profissão; enfim, não vivia honestamente.
Argumentos de defesa: O sapateiro usa como defesa, para não embarcar na barca do Inferno, o facto de ter dado dinheiro à igreja e de ter mandado rezar orações pelos defuntos, enquanto era vivo.
Recursos estilísticos:
- Anáfora:
“E as ofertas, que darão? E as horas dos finados?E os dinehrios mal levados…”
- Ironia:
“Santo sapateiro honrado!Como vens tão carregado?”
Percurso cénico do Sapateiro:
Cais ® Barca do Inferno ® Barca da Glória ® Barca do Inferno ® Embarca
Cena VI
· Frade: Como todos os representantes do clero, focalizados por Gil Vicente, o Frade é alegre, cantante, bom dançarino e mau carácter. Acompanhado da sua amante, o Frade acredita que por ter rezado e estar ao serviço da fé, deveria ser perdoado ao fogo do Inferno. Gil Vicente crítica fortemente o clero, acreditando este ser incapaz de pregar as três coisas mais simples: a paz, a verdade e a fé.
· Símbolos que o caracterizam: Uma moça, um broquel, uma espada e um casco debaixo do capelo.
· Argumentos de acusação: O Frade é acusado de ter folgado com uma mulher; ser infiel perante a igreja pois era dado aos prazeres do mundo e também é acusado de roubo.
· Argumentos de defesa: O Frade usa como defesa o facto de ser da corte; de usar o hábito e de ter rezado os salmos.
· Recursos estilísticos:
- Perífrase:
“Pêra aquele fogo ardenteque nom temestes vivendo.”
- Ironia:
“Devoto padre marido,haveis de ser cá pingado…”
· Percurso cénico do Frade:
Cais ® Barca do Inferno ® Barca da Glória ® Barca do Inferno ® Embarca
Cena X
· Enforcado: Chega ao batel acreditando ter o perdão garantido pois o seu julgamento terreno e posterior condenação à morte o teriam redimido dos seus pecados, mas é condenado também a ir para o Inferno.
· Símbolo que o caracteriza: Corda ao pescoço.
· Argumentos de acusação: O enforcado é acusado de ter sido ladrão e de ter sido condenado à morte.
· Argumentos de defesa: O enforcado usa como defesa o facto de ter sido condenado à morte e enforcado, segundo ele os que morrem assim são livres de Satanás.
· Recursos estilísticos:
- Anáfora:
“Disse que era o Limoeiro,e ora por ele o salteiroe o pregão vitatório;e que era mui notório…”
- Ironia:
“Entra cá, governarás atá as portas do inferno.”
· Percurso cénico do Enforcado:
Cais ® Barca Do Inferno ® Embarca
Conclusão
Com este trabalho ficamos a conhecer um pouco melhor uma das muitas obras escritas por Gil Vicente – “O Auto da Barca do Inferno”.
Neste trabalho foram analisadas quatro das cenas que constituem esta peça teatral: cena III: o onzeneiro; cena V: o sapateiro; cena VI: o frade e a cena X: o enforcado. Esta cenas foram analisadas nos seguintes aspectos: os símbolos das personagens que entram em cena, os argumentos de acusação, os argumentos de defesa e os recursos estilísticos presentes.
Através desta peça Gil Vicente critica a sociedade portuguesa da sua época, como foi possível observar na análise destas quatro cenas.
Auto da Barca do Inferno
Ridendo Castigat Mores
"Ridendo Castigar Mores" e o Auto da Barca do Inferno
“Ridendo castigat mores”, expressão latina que significa “a rir criticam-se os costumes”, é a frase que melhor resume a intenção e o estilo próprio de Gil Vicente, poeta e dramaturgo português do séc. XV, conhecido por todos nós.
Esta expressão é a forma mais adequada de iniciar a abordagem do “Auto da Barca do Inferno” ou “Auto da Moralidade”, pelo facto de nesta obra ser bastante evidente a sátira social que, através do seu cómico, critica a sociedade, tentando assim denunciar tudo aquilo que na opinião do autor era merecedor de atenção e mudança.
É certo que Gil Vicente não foi o criador do teatro português, mas foi com ele que este transcendeu o estado embrionário em que se encontrava, desde o século XIII, e passou para um nível mais elevado, mais moderno, tal como diz Luís Francisco Rebello em “A História do Teatro Português”, “Gil Vicente é ao mesmo tempo, o derradeiro medieval e o primeiro dramaturgo moderno. E essa é talvez a faceta mais importante daquela unidade que, acima de tudo, caracteriza a sua obra”.
O autor criou um teatro à parte da pré-história e fê-lo enquadrar-se na sua própria contemporaneidade.
Assim, além de ser um espantoso feito literário, a obra vicentina possui algo enérgico que sobressai espontaneamente em cada parágrafo, em cada linha, em cada palavra que a constitui, ou seja, a obra retrata a sociedade portuguesa do seu tempo. O escritor vê nela todos os pormenores que a caracteriza tais como as suas classes sociais, os seus vícios, e os seus impulsos intelectuais e religiosos.
Já Deniz-Jacinto nos dizia em “O Tempo Encontrado”, “...foi ainda um corajoso denunciante da venalidade dos grandes, não poupando até a mais alta hierarquia eclesiástica.”
Devido a isto, e para conseguir abranger o máximo de características possível, Mestre Gil usou personagens tipo, que iam desde personagens divinas e diabólicas, passando por todas as classes.
Este facto é bem evidente no “Auto da Barca do Inferno”, obra escrita em 1517, pois nela interagem personagens tão diferentes e únicas como o Anjo, o Diabo, o Fidalgo, o Onzeneiro, o Parvo, o Sapateiro, o Frade, a Alcoviteira, o Judeu, o Corregedor, o Procurador, o Enforcado e os Quatro Cavaleiros.
Mas por que razão pretendeu Gil Vicente juntar personagens tão distintas numa só obra? Por uma simples razão: pelo facto de ansiar atingir o fundo da questão, chegar ao íntimo do que o rodeava e do que observava quotidianamente.
Então, decidiu usar, na sua obra tão singular, personagens que, por serem tão diferentes, conseguem caracterizar grupos inteiros, pois identificam a maioria das características que definem um determinado estereótipo. Por exemplo, o Fidalgo, com o auxílio de símbolos como o pajem, o manto e a cadeira, caracteriza a nobreza, pelo seu modo tirano, vaidoso e poderoso. O Frade simboliza o Clero, pela presença de símbolos como a moça, o casco, o broquel, a espada e o capelo (característico da vida religiosa). O mesmo se vai passando com todas as outras personagens.
As personagens do Auto da Barca do Inferno podem ser encontradas, ainda hoje, no nosso dia-a-dia, se não vejamos: o Onzeneiro, que emprestava dinheiro e que pedia o dobro ou o triplo de volta, pode ser comparado com o actual monopólio da Banca, os seus sistemas de créditos e os juros aplicados; a Alcoviteira, com as suas meninas e o seu jeito depravado, pode ser hoje comparada com as donas de bordeis, que ganham a vida com a exploração e gestão da prostituição; o Procurador e o Corregedor, que actuam não sobre uma justiça com regras definidas e claras, mas segundo os seus princípios e interesses particulares, podem ser comparados com o sistema judicial actual, onde a justiça é muitas vezes difícil de se conseguir e sobretudo muito lenta.
Existem no total 13 personagens que, uma a uma, vão entrando em cena.
O Fidalgo é a primeira, e vem acompanhado pelo seu pajem, que lhe carrega a cadeira. Este é escolhido como primeira personagem deste Auto, uma vez que era objectivo do autor cativar os espectadores, neste caso a Nobreza, devido ao facto das suas peças serem representadas na corte. Ele procura a salvação argumentando que partiu muito repentinamente e que, além disso, merecia alguma consideração, pois era “fidalgo de solar”. Porém, estes argumentos de nada lhe valem pois, para o Anjo, nenhuma destas justificações é realmente pertinente e digna de ponderação.
Assim, de modo a justificar a sua atitude de negação, o Anjo acusa-o de, ainda em vida, ter oprimido, explorado e desprezado o povo e de sempre ter tido uma atitude vaidosa e presunçosa.
Por fim, quando se apercebe de que já não tem como argumentar a sua tão desejada entrada na Barca da Glória, resigna-se à evidência de que o seu novo destino está já marcado: terá de entrar na barca ardente. É neste momento que usa expressões como “Ó barca como és ardente!”, ou “Maldito quem em ti vai!”.
Além desta personagem, como já dissemos, Quase todas as outras vão também para a Barca do Inferno. São excepção a personagem do Parvo e dos 4 Cavaleiros. O primeiro, graças à sua ingenuidade e inconsciência dos seus actos e, estes últimos, pela virtude das suas acções, não chegam sequer a aproximar-se da Barca do Inferno, indo directamente para a Barca da Glória.
Com isto, ambas as barcas seguem o seu próprio caminho, uma em direcção ao Inferno, e outra em direcção ao Paraíso, terminando assim a obra.
É de realçar que a personagem do Judeu vai a reboque na barca do Inferno. Isto é importante uma vez que vincula o carácter católico de Gil Vicente, não aceitando o Judeu nem dentro da barca do Inferno.
Gil Vicente utilizou ao longo da obra três tipos de cómico: o de situação, o de linguagem e o de carácter.
Este auto é assim uma obra que sobressai na literatura portuguesa quer pela sua intemporalidade, quer pelo seu estilo cómico-satírico único.
Os objectos da crítica Vicentina – a corrupção na justiça, a prostituição, a ganância, a usura, a vaidade, a presunção do estatuto social, entre outros – ainda fazem parte da sociedade portuguesa contemporânea porque o cómico que criticava implicitamente a sociedade quinhentista consegue, ainda hoje, criticar-nos provocando-nos o riso.
Foi este o objectivo principal de Vicente: criticar de uma forma cómica mas nem por isso explícita e, assim, alterar os costumes de uma época marcada pela falta de valores que se estendeu até aos nossos dias, ou talvez corrigir os costumes, respeitando assim o ideal “ridendo castigat mores”.
O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá
Os Lusíadas Contados às Crianças e Lembrados ao Povo
ARROZ DO CÉU - ANÁLISE
FUTEBOL